Guinga alcança o mundo a partir da geografia carioca que impulsiona o álbum 'Zaboio'

Guinga alcança o mundo a partir da geografia carioca que impulsiona o álbum 'Zaboio'

Arte de Xabier Monreal

Resenha de álbum

Título: Zaboio

Artista: Guinga

Edição: Edição independente do artista com distribuição da Tratore

Cotação: * * * * *

♪ Pautada por modernismo enraizado no passado, a obra de Guinga como compositor e violonista se eleva ao evocar universo musical que se espraia pelos interiores do Brasil ao mesmo tempo em que extrapola as fronteiras do país, alcançando o território ilimitado do jazz e o continente africano, matriz dos sons do mundo.

Embora amplo, todo esse universo parece estar circunscrito às ruas do subúrbio do Rio de Janeiro (RJ), cidade natal do artista de 71 anos completados em 10 de junho. A propósito, foi no dia do 71º aniversário que Guinga lançou o álbum Zaboio, cuja capa expõe arte de Xabier Monreal, idealizador com Fernanda Vogas desse disco que será editado no formato de LP.

Zaboio é o primeiro título em que Guinga assina todas as letras em discografia iniciada há 30 anos com o álbum Simples e absurdo (1991), songbook que apresentou a parceria de Guinga com Aldir Blanc (1946 – 2020).

É da geografia carioca de um Rio antigo, romanticamente preservado na mente de Guinga, que se alimenta a célula mater das 11 músicas de Zaboio, disco gravado de 15 a 23 de fevereiro deste ano de 2021, no formato de voz & violão, com produção musical de Alexandre Kassin.

Reverente a Guinga, Kassin atuou com inteligente discrição nessa produção sem interferir na arquitetura da obra desse compositor que, em Zaboio, se firma como letrista, assinando os versos de 10 das 11 músicas.

A exceção é Casa de Francisca, tema instrumental em que, somente com o toque magistral do violão, Guinga expressa todo o sentimento afetuoso em relação a esse polo cultural da cidade de São Paulo (SP).

Guinga assina todas as dez letras do álbum 'Zaboio'

Renato Mangolin / Divulgação

Pelo fato de o compositor assinar as letras, a geografia carioca de Zaboio é desenhada com nitidez na coreografia de A bailarina e o vagalume – música dedicada por Guinga à neta com versos que nomeiam bairros cariocas como Andaraí e Cosme Velho – e de Meu pai (2017).

Lançada sem letra no álbum Canção da impermanência (2017) e reapresentada com os versos no disco Avenida Atlântica (2017), Meu pai é uma das duas regravações do coeso cancioneiro autoral de Zaboio (a outra é Porto da Madama, composição apresentada por Guinga em 2009 em álbum, Saudade do cordão, dividido com o clarinetista Paulo Sérgio Santos).

No repertório essencialmente inédito de Zaboio, Guinga apresenta obras-primas como Paulistana sabiá – tributo do compositor a Mônica Salmaso, cantora paulistana que, ao dividir a interpretação da música com Guinga, reitera o pleno entendimento que sempre teve da obra do artista – e Sabia negritude.

No sublime canto triste de Paulistana sabiá, Guinga se inspira no verde do Jardim Europa – bairro da cidade de São Paulo (SP) – para reverenciar Salmaso em paisagem povoada por fauna e flora em que até as rosas de Cartola (1908 – 1980) não mais se calam.

Em Sabia negritude, Guinga puxa o fio da memória da infância para saudar Mãe Tainha, cozinheira de Itamaracá da qual tinha medo pela figura que, à época, lhe parecia estranha, como um duende. Ao se redimir com Mãe Tainha através da música, Guinga estende o fio memorialista de Zaboio até a África-mãe para, de lá, exaltar Candeia (1935 – 1978), Cartola, Duke Ellington (1899 – 1974) e Esperanza Spalding na faixa.

Guinga saúda o pianista fluminense Sergio Mendes em 'Tangará', tema de beleza inebriante

Renato Mangolin / Divulgação

Ao longo do álbum Zaboio, Guinga voa pelo mundo, cruzando as águas de Niterói (RJ) para saudar o pianista fluminense Sergio Mendes em música de beleza inebriante, Tangará, faixa que também remete ao mundo interiorano, sertanejo, evocado por Saíra apunhalada. A propósito, Saíra apunhalada é tema originalmente instrumental intitulado Pai do mato e composto por Guinga para o clarinetista Pedro Paes.

Música ainda inédita em disco, Pai do mato se transformou em Saíra apunhalada quando ganhou a letra em que Guinga cruza a Mantiqueira, vindo de Madureira, em outra ponte Rio-São Paulo que interliga as influências e referências de Zaboio, álbum cujo título expõe palavra inventada por Guinga a partir de aboio.

Entre a imersão no mundo rural da música-título Zaboio – aboio que revolve memórias da infância do artista e que culmina com a repetição do verso “ê boi” no fecho do disco – e a delicadeza da canção Desacompanhado, o cantor (de voz profunda e por vezes lacrimosa) se reencontra com Mônica Salmaso na dramaticidade solene que se arma em Jogo de damas, dolente canção a dois sobre fim de amor.

Enfim, a partir da geografia carioca que impulsiona Zaboio, álbum íntimo e pessoal, Guinga alcança o mundo sem tirar os pés do chão que embasa a obra superlativa do artista.