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Alaíde Costa espalha sementes pelo caminho entre confirmações de álbum feito com Emicida

Por Romualdo Matos em 19/05/2022 às 13:16:21
Cantora imprime delicadeza na atmosfera de samba-canção que pauta 'O que meus calos dizem sobre mim', disco produzido por Marcus Preto com o rapper sob a direção musical de Pupillo. Capa do álbum 'O que meus calos dizem sobre mim', de Alaíde Costa

Ênio César

Resenha de álbum

Título: O que meus calos dizem sobre mim

Artista: Alaíde Costa

Edição: Samba Rock Discos

Cotação: * * * * *

? Em teoria, um disco de Alaíde Costa produzido por Emicida e Marcus Preto com composições inéditas, sob direção musical de Pupillo, representa ruptura na discografia dessa cantora carioca de 86 anos que debutou no mercado fonográfico em 1956.

Na prática, o álbum O que meus calos dizem sobre mim – lançado nesta quinta-feira, 19 de maio, com sete músicas inéditas entre as oito faixas – expõe confirmações dos dotes e da personalidade firme da artista na condução da carreira.

“O meu caminho eu mesma fiz / Não foi ninguém que me apontou”, reitera Alaíde em versos de Aos meus pés (João Bosco e Francisco Bosco, 2016), única música já pré-existente em disco – no caso, escondida no segundo CD com a trilha sonora da novela A lei do amor (TV Globo, 2016).

A grande maioria do repertório foi composta para a cantora, e nisso O que meus calos dizem sobre mim leva vantagem sobre outros álbuns idealizados para Alaíde, como o antológico Coração (1976), gravado com arranjos de João Donato e produção musical de Milton Nascimento, artista responsável pela reinserção da cantora no mercado em 1972, ano em que Milton lançou o álbum duplo Clube da Esquina com a participação de Alaíde na emblemática gravação que redimensionou o samba Me deixa em paz (Monsueto Menezes e Airton Amorim, 1951).

Alaíde Costa canta oito músicas no álbum 'O que meus calos dizem sobre mim'

Ênio César / Divulgação

Decorridos 50 anos daquela injeção de fôlego na carreira, Alaíde Costa continua sendo percebida como uma das joias mais raras da música brasileira. Tanto que compositores do porte de Erasmo Carlos, Fátima Guedes, Guilherme Arantes, Ivan Lins, Joyce Moreno, Nando Reis e Tim Bernardes se mobilizaram para produzir e fornecer repertório para O que meus calos dizem sobre mim, álbum requintado que gravita em torno da atmosfera noturna do samba-canção, adensada com arranjos de metais orquestrados por Antonio Neves, Eduardo Neves, Henrique Albino e Tiquinho.

Nesse sentido, foi certeira a pista dada pelo single lançado em 8 de abril, Tristonho, com a gravação do samba-canção que abre a parceria de Alaíde Costa com Nando Reis, viabilizada quando a artista enviou ao titã mais romântico do pop rock nacional uma melodia guardada desde os anos 1960 e letrada por Nando em minutos.

O álbum O que meus calos dizem sobre mim tem a marca conceitual do idealizador Marcus Preto, habitual articulador de parcerias que criam pontes entre artistas de gerações e universos distintos. O disco de Alaíde apresenta, por exemplo, a primeira (inspirada) composição de Erasmo Carlos com Tim Bernardes, Praga, samba-canção ornado com metais orquestrados por Eduardo Neves em arranjo que remete aos salões dos anos 1950, como o do carioca Dancing Avenida, no qual Alaíde bateu ponto como crooner no início da carreira.

A letra de Tim Bernardes segue a linha amargurada da maior parte dos sambas-canção daquela época. Os versos clamam desejos de vingança em pragas rogadas por Alaíde com a habitual delicadeza vocal, acentuada e evidenciada no álbum desde a primeira faixa, Turmalina negra, uma das pedras mais preciosas do repertório de O que meus calos dizem sobre mim, disco cuja banda-base foi formada com Fábio Sá no baixo, Leo Mendes no violão e o próprio Pupillo na bateria.

Alocada na abertura do Lado A da futura edição em LP do álbum, Turmalina negra tem letra e música de Céu, harmonizada por Diogo Poças, irmão da compositora. O belo samba-canção espalha otimismo ao vislumbrar vendaval de transformações que tornarão o planeta “mais colorido”.

A atmosfera de Turmalina negra contrasta com o tempo nublado de Pessoa-ilha, a música que abre o lado B e que representa de fato uma virada no disco, pela arquitetura intrincada da balada de Ivan Lins letrada por Emicida com versos em que, na mente solitária e isolada em si mesma, emergem imagens de “Carros, cabos, praças / Mil soldados / Carrancudos e ocupados / Onde crime é compaixão”.

Entre o desencanto do samba-canção Nenhuma ilusão (Fátima Guedes) – em cuja gravação sobressai o toque do vibrafone de Jota Moraes – e a ternura do acalanto Berceuse, composto por Guilherme Arantes com inspiração em tema francês do compositor Gabriel Fauré (1845 – 1924) com versos do poeta Paul Verlaine (1844 – 1896), Alaíde Costa analisa o tempo no fecho do álbum, ao dar voz em Aurorear aos versos de Emicida musicados por Joyce Moreno, e conclui que sempre é tempo de dançar no contratempo.

Com repertório de ótimo nível (com destaque para as composições de Céu com Diogo Poças, de Fátima Guedes e de Erasmo Carlos com Tim Bernardes) que forma belo conjunto de obra, O que meus calos dizem sobre mim é estupendo disco de confirmações ao mesmo tempo em que espalha sementes pelo chão, deixando claro que Alaíde Costa ainda não chegou ao fim do caminho que ela mesma fez. Aos 86 anos, Alaíde Costa semeia e colhe frutos.

Alaíde Costa lança hoje, 19 de maio, o álbum 'O que meus calos dizem sobre mim'

Ênio César / Divulgação
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